2017, 2h24

  às vezes, gosto de imaginar como seria se eu me desmontasse por inteira, inteirinha, até restar somente uma vaga memória sobre mim. 

primeiro eu tiraria a pele. faria um corte na ponta do dedão e iria puxando como se fosse uma cutícula ou o plástico azul que envolve coisas feitas de metal. imagino o alívio que seria ver todas as estrias e celulites e cicatrizes e pelos encravados e gorduras e oleosidade indo embora. imagino que eu me perguntaria o porquê de não ter feito isso antes.

depois, só com os músculos à mostra, eu me cortaria em pedaços. primeiro os pés grandes e mal feitos. logo em seguida, eu dividiria minha perna em duas partes, cortando na altura do joelho; e minhas canelas finas demais se separariam das coxas gordas que esparramam quando sento. a bunda mereceria um corte à parte, por ser tão medíocre. me livrara de suas marcas quando arrancara minha pele, mas seu músculo é provavelmente tão vergonhoso que me aliviaria vê-lo longe. partiria a barriga no formato de ondas, horizontalmente, pra representar as gorduras que sempre me envergonharam, desde quando eram em maior quantidade. rasparia os seus lados, pra unificar a formação da silhueta, um tanto variante nessa região. os peitos seriam separados um do outro, e cada um seria cortado como se corta um sushi. depois, costuraria tudo de novo, pedaços aleatórios juntados assimetricamente; e, ainda assim, o resultado final não seria tão desagradável quanto os meus peitos são nesse exato momento. cortaria a garganta como se estivesse em game of thrones, e só nesse momento, adoraria ver o sangue escorrer, fluído e consistente, vermelho vivo saindo de um corpo morto. recortaria os lábios finos e esquisitos como se estivesse fazendo um trabalho de colagem pra escola. tiraria o aparelho e arrancaria dente por dente da arcada defeituosa, até ter a boca de uma senhora de 80 anos. picaria o nariz espalhafatoso em mil pedaços minúsculos e os assopraria em direção ao vento. furaria os olhos redondos e grandes com vários alfinetes e depois o cortaria como se fosse um tomate. por último, esmagaria o crânio, de forma que uma extremidade se juntasse com a outra. o queixo pontudo, a testa grande demais, os ossos muito aparentes... tudo isso viraria um só, ou partes indistinguíveis.

no entanto, antes disso, tiraria meu cérebro e o guardaria em um aquário cheio de água. minha pele e os recortes de meu corpo, eu colocaria em uma sacola preta e queimaria em um terreno baldio, pra ter certeza que jamais veria o motivo de minha tristeza constante novamente.

já meu cérebro - com todas as suas inseguranças, paranoias e pensamentos autodestrutivos -, enfiaria no corpo de algum estuprador, serial killer ou terrorista, e rezaria pra que nenhum mal muito grande fosse feito nos 15 anos seguintes, que foi o tempo que levei pra não aguentar mais morar dentro de mim. 

e então, sucumbiria, finalmente, à paz.

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